Conversamos com o Carlos Miyanishi, piloto de São Paulo que iniciou no esporte enquanto vivia no Japão. Ele falou do seu carro, sua história e comentou sobre as maiores diferenças entre o Drift praticado aqui e no Japão.

Como está esse período em casa?

Bom, nesse período de quarentena, o carro está mais pronto do que pronto. O que eu tenho feito é dar uma lavada e uma encerada, uma lambida de lata mesmo (Risos). Já estava tudo pronto para a primeira etapa. Agora me restou o simulador para treinar.

Falando em simulador, você consegue trazer elementos de treino para as pistas?

Cara, eu vou falar para você, eu gosto muito do simulador. Assim, não é 100% como na vida real, óbvio. Eu prefiro dizer que a simulação é uma modalidade do drift, mesmo porque falta a força G, falta aquela trabalheira toda de ir para os eventos, voltar, aquela sensação de dever cumprido, cheiro de pneu queimado, isso não tem. Mas eu tiro bastante proveito da simulação, tem a aproximação, como lançar o carro, claro que cada carro tem as suas particularidades, e no game também. Não tem nenhum carro igual ao da vida real, eu sempre falo isso, mas o jeito que você dirige tem que ser como o da vida real as vezes até mais afinado. Então eu acho a simulação super válida, sim.

Voltando para o mundo real, fala um pouco do seu carro.

É uma BMW 328i, toda original com exceção de alívio de peso, suspensão, kit turbo e alguns outros detalhes. Eu também tenho uma FT 350 para a alimentação e algumas alterações no arrefecimento, que é inter cooler, um radiador maior e um radiador de óleo, e para fechar, um Kit ângulo. A minha Bmw, hoje, anda com 500cv e eu tenho um booster para me salvar. Eu consigo subir mais uns 50cv numa emergência. Mesmo porque o carro tem o miolo original então não dá para ficar andando com uma pressão muito alta, mas o carro é bem legal, ele está bem afinado.

Pode contar como foi a sua trajetória no drift até agora?

Hoje eu tenho 42 anos, e com 20 anos eu fui parar no Japão. Nos primeiros dias lá, eu vi o drift, e fiquei louco porque eu não entendia nada do que estava acontecendo. Eu me perguntava o que os caras faziam para conseguir andar de lado. Por causa dessa noite, a minha meta de ir para o Japão, juntar dinheiro e comprar um carro pra usar no Brasil acabou ali mesmo, porque eu comprei um carro lá e fiquei por mais 7 anos. Minha primeira experiência foi em 2000, em 2001 eu já estava com o meu carro e a partir disso, só queria saber de drift. Todo o dinheiro que eu ganhei na vida eu torrei com esse negócio (Risos). Eu tive alguns carros, um Laurel, um Cefiro, um 180sx e um Skyline GTT.  Depois com a família formada eu voltei para o Brasil e me deu uns 5 minutos, há uns 4 anos atrás, e decidi montar um carro de drift e vou voltar a praticar. A minha história resumida é essa.

Já participou de outros campeonatos ou competições?

Geralmente eu participo de sokokais. Mas falando em campeonatos, eu me arrisquei em alguns episódios na SDB, na época foi mais para eu poder conhecer o ambiente de competição daqui e aprender um pouco mais, porque a minha estrutura sempre foi um pouco debilitada para competir. Participei de eventos em 2017,2018 e 2019. Esse ano a ideia era participar da temporada completa, mas com essa pandemia precisamos ver o que vai acontecer.

Qual era a sua inspiração lá no começo?

Cara, eu sou de uma comunidade que se chama Dekassegui, que é formada por brasileiros que vão para o Japão atrás de emprego para conseguir uma vida melhor e acabam conhecendo o drift. Então os meus heróis são aqueles brasileiros que me mostraram que o Japão não era só o trabalho de fábrica, ir para casa e esperar cumprir a sua meta e voltar para o brasil. Tive um aprendizado lá. Então minhas referências eram os brasileiros que andavam naquele tempo e pilotavam muito bem. Meu sonho era andar igual à aqueles caras. Na época eu queria ver os brasileiros mandando mais que os japoneses naquela modalidade louca. Alguns deles estão aqui no Brasil e ainda andam, não estão em campeonatos mas continuam pilotando muito.

 

Uma coisa que é bem legal de falar é sobre a diferença de estilos entre o drift clássico japonês e o drift que praticamos por aqui. O jeito de atacar e defender que aprendi no Japão, é completamente diferente. Então esse é um novo desafio para mim, eu estou aprendendo a fazer um drift que eu não fazia. Lá eu andava em percursos estreitos e sinuosos, aqui andamos autódromos, pistas largas, com marcação no chão, inside e outside clips. É uma adaptação total porque como nós acabamos carregando alguns vícios de pilotagem, mudar isso é difícil. O drift virtual tem me ajudado muito nesse quesito. O virtual usa o sistema de pontuação formula drift, então eu posso me acostumar com esse conceito de pontuação. Além disso, hoje eu não consigo treinar na pista com frequência, então os meus treinos para os eventos, geralmente, são feitos através do simulador. Eu sou o tipo do piloto que vai para o campeonato sem muitos treinos na pista, vou na cara e na coragem. Claro que nas minhas participações o lugar mais alto do pódio sempre foi a meta, mas só o fato de estar lá, para mim, já representa uma vitória, estar no meio de todos esses pilotos, com o meu carro, competindo naquilo que eu mais gosto, para mim é um sonho.

Você consegue apontar as maiores diferenças entre o estilo japonês e o nosso?

No drift japonês se usa uma linha de mais veloz. Isso não quer dizer que o estilo que competimos é lento, mas o japonês geralmente tem uma linha de melhor tangência. No no nosso sistema, o show é priorizado, nós ficamos mais tempo fazendo drift. Nossas curvas normalmente são feitas totalmente por fora, no final ela acaba sendo mais longa do que fazer um contorno no grip. Você faz um caminho mais longo para ter um tempo maior de “show”. Tem o ataque e defesa, que é o famoso, “porta na porta”. A grande diferença são os pesos na hora do julgamento, por aqui o mais importante é fazer a mímica, claro que mantendo a menor distância possível, já no Japão se acaba fechando os olhos para algumas coisas e o grande foco é a proximidade entre os carros.